Arquivo de outubro, 2013

ARTIGO – ALDIR BLANC

Publicado:19/10/13 – 0h00

Seja bem-vindo, Danilo! É meu dever de bisavô não mentir para você. Como escreveu o grande Paulo Mendes Campos, você nasceu no mais estranho dos países. Um país onde o presidente do Senado prega austeridade mas recebia, para refeições caseiras, com a grana da ralé, 20 quilos de camarão dos grandes, 25 de outros frutos do mar, quase 2toneladas (o grifo é meu) de 30 espécies diferentes de carne… Segundo notícias, o parlamentável está comendo em restaurantes e casas de amigos. Não deve estar infeliz. Réu-nan sempre gostou de comer fora. Já teve refeição nas páginas centrais da Playboy.

É um país onde Unidades de Pacificação sequestram, torturam, matam e somem com os corpos dos interrogados. Um país no qual meninas e moças são estupradas e mortas todos os dias. Na sua pátria, Danilo, investigam-se quase 200 traficantes que aterrorizavam São Paulo, mas será feito de tudo para encobrir que as maiores autoridades desse estado estão envolvidas num escândalo que faturou tanto ou mais que o tráfico, em conluio com empresas alemãs. Essas empresas pactuaram com o nazismo de Hitler, inclusive no projeto e construção de fornos crematórios. Esses farsantes paulistas são conhecidos como pfefferfresser (minha palavra favorita para tucano em alemão). São muito moralistas. Seu tataravô, o Ceceu, fazendo 91 anos, louco de alegria com sua chegada, me levava em passeios na Quinta da Boa Vista, que começavam com os cavalos de Nhô Félix e terminavam num imenso corredor com gaiolas de pássaros. Eu perguntava: “Pai, por que as araras fazem tanto barulho e os tucanos, com bicos bem maiores, ficam quietos?”. Eis a resposta de seu tatara, típico morador do Estácio. “Vai ver, filho, os tucanos combinam suas jogadas de noite e depois preferem ficar na moita”. Tá vendo, Danilo, como seu país é imprevisível? O tataravô, apesar de humilde funcionário da Previdência, era profeta e não sabia.

Vivemos em um país, meu bisneto, onde bumbuns femininos são apreciadíssimos, a ponto de um deles ter sido aprimorado com dinheiro público, mas eu não tenho o direito de meter o dedo na obra… Olha só que coisa triste, vozes que já clamaram por liberdade, hoje pedem censura. Artistas consagrados levantam bandeiras contra a subsistência de seus companheiros de classe. Esses trânsfugas, patrocinados por grupos internacionais poderosíssimos, se julgam arautos do futuro. Arautos ricos, claro. Não são descamisados, não. Estão bem por dentro dos eixos. Embora vivamos em uma democracia espionada, há um medíocre rei, que surge nos fins de ano. Ele não perde oportunidade para conchavos, cabalas e meter a mão cheia de anéis em cachês.

A impunidade é espantosa. Não existem ricos presos, embora roubem descaradamente. Rola uma tal base de sustentação (não vou explicar para que você não vomite o leitinho).

Sua mãe, Milena, garante que você será Vasco. Aí, filhote, você vai precisar de muuuiiita capacidade de suportar frustrações e intermináveis sequências de burrice.

Beijo emocionado do bivô Aldir.

Aldir Blanc é compositor

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