Como mudou!

Publicado: 7 de maio de 2012 em Uncategorized

Durante minha adolescência passei muitas e muitas noites nos pagodes da quebrada, era no Bar da Batida no Regina, no Quiosque no Arariba, na Kamassati, na pizzaria, enfim, vários eram os lugares onde um grupo de jovens, assim como eu na época, faziam o famoso pagode. Esses jovens tinham a ambição de fazer muito sucesso, de ter suas músicas cantadas por todos, tocadas nas rádios e tudo mais que vem com a fama.

Para falar a verdade eu não curtia muito esses pagodinhos românticos demais, mas enquanto era adolescente não tinha, nem grana para frequentar os sambas fora do bairro e nem conhecia muita coisa fora também, a única opção de samba diferente eram os ensaios da Gaviões e do Vai Vai.

Aqueles garotos que cantavam os sambas nos bares cresceram e viram que viver da música é muito difícil no Brasil e mesmo com talento, ás vezes a gente não consegue. Assim como no futebol, a música é uma ilusão para a maioria.

Bom o tempo passou e no bairro onde moro poucos fizeram da música sua profissão Aquele pagode que encantou as periferias de São Paulo na década de 90 hoje não encanta mais, não sei se a quebrada hoje tem mais grana e consegue dar um role fora do bairro, ou se faltam opções por conta da violência que percorreu todo esse tempo junto com pagodes, já que era comum todo mundo sair correndo do pagode quando começava o tiroteio. Não era estranho pra ninguém uma pessoa matar outra no meio do samba, eu mesmo já presenciei mais 4 assassinatos nessas situações.

A mistura dessa desilusão com a música, da violência e talvez de um maior poder econômico, fez que com que outras coisas aparecessem na quebrada. Uma delas foi à volta do samba, que por um tempo foi semeado no bar do Chapinha e espalhado por muitos territórios em São Paulo, mas que por vários motivos deixou de acontecer dando espaço á música comercial. Assim aconteceu com Katinguelê, Grupo Malicia, Sem Compromisso e tantos outros.

Esses grupos tiveram um papel importante na formação musical de vários jovens daquela época, além de que, eram sempre pessoas da periferia que estavam conseguindo viver da música. Meu único questionamento é a venda de uma ilusão, pois era muito claro que não tinha espaço para todos e nos bastidores todos sabiam que para conseguir tocar na rádio, só com muita grana para o famoso “Jabá”.

Depois da década de 90 não tínhamos mais tantos grupos de pagode fazendo sucesso nas rádios. Acredito que a internet foi muito responsável por isso, pois as musicas estão muito mais acessíveis.
Durante a primeira década de 2000 poucos grupos restaram e fizeram sucesso, alguns estouraram e sumiram, mas poucos permaneceram como Exaltasamba, Pixote, Belo, Revelação, Alexandre Pires e não sei mais quem.
Nesse momento começaram a surgir alguns movimentos de samba nas periferias. Os espaços onde se tocava o samba autentico deixaram de ser tão raros e o samba “raiz” começou a voltar para a periferia, já que por falta de espaço ele tinha se afastado e invadido o centro da cidade e os bairros de classe média como Vila Madalena, por exemplo.

O Samba da Vela foi o primeiro movimento de samba mais perto da periferia que eu conheci. Não foram poucas as vezes que eu, meus primos e amigos passamos a segunda à noite no bar do chapinha em frente ao colégio Lineu Prestes em Sto Amaro ouvindo sambas que nunca ouviríamos em outro lugar, de compositores desconhecidos da maioria.

Esse foi com certeza o movimento cultural mais forte que eu tinha conhecido até então. A preocupação em dar visibilidade aos artistas que não tinham espaço nos sambas comerciais da mídia me encantou, uma missão difícil que só de existir já era sensacional. Conheci musicas lindas e a partir daí a procurar mais sambas do mesmo gênero. O primeiro indicado por Maurilio de Oliveira foi o Mestre Marçal, simplesmente fantástico. Mas também não quero contar a minha vida no samba aqui.

O fato é que depois do Samba da Vela, outros surgiram, e hoje é o samba que realmente toca na periferia, é o samba que cultiva a história do país, que tem o compromisso de transmitir conhecimento para as pessoas, passar valores e o mais importante, nesse samba ninguém está preocupado em vender mais, em conseguir mais, a única preocupação é a disseminar uma cultura que ficou a tempos esquecida e que hoje tem seus redutos nas quebradas de São Paulo.

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comentários
  1. Anderson Souza disse:

    Realmente os anos 90 foram de estouro para o pagode, a sua propagação ocorreu pela periferia e era natural que os grupos sonhassem com o glamouroso mundo das celebridades, afinal, como diz a canção; “sonhar não custa nada.” Muitos conseguiram chegar lá, mas o tempo passa pra todo mundo, não é mesmo? Então, a musica saiu de moda os rostos bonitinhos envelheceram e muita gente boa ficou pelo caminho, poucos perduraram, como foi lembrado.

    Certa vez, folheando o encarte do CD do Quinteto em Branco e Preto, li uma frase que dizia assim: “O samba é o morto mais vivo que existe.” (infelizmente não lembro o autor da frase). Por algum motivo e não sei o qual, essa frase ficou comigo, porém, com o passar do tempo ela foi construindo sentido.

    No Brasil, a ascensão e queda de ritmos musicais é constante, sem esforço de memória, quem não se lembra da lambada, do axé do É o tchan?
    E o samba? Onde estava? Hoje vejo que o samba continuava com os seus apaixonados sambistas, sendo feito à margem, sem alarde, sem vaidade e garantindo sua renovação com jovens como; Maurílio de Oliveira.
    As semente foram plantadas e os frutos são os movimentos de samba espalhados pelos quatro cantos da cidade, que compartilham conhecimento e cultura boa na periferia.

    Belo texto,concordo com quase tudo que disse, a único trecho que não ficou claro para mim foi; “nesse samba ninguém está preocupado em vender mais, em conseguir mais.”

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