Arquivo de maio, 2012

COMIDA DE BOTECO

Publicado: 23 de maio de 2012 em Uncategorized

Meu grande amigo Alexandre Paulo Ciriaco, me pediu que escrevesse sobre um tema dos mais gostosos; Comida de Boteco. Gostoso de escrever, melhor ainda de provar. No boteco ao pedir seu Chopp, Cerveja, Cachaça, Caipirinha, em todas as suas variações, e até um bom vinho pra alegrar sua tarde, noite ou madrugada, fica sempre faltando algo para “rebolar o queixo”, como se propaga na periferia paulistana. O Petisco, Petisquete, Snack, Porção, Acepipe e até o que minha Avó lusitana chamava de “conduto” é condição sine quo non para uma completa harmonia. E falando em Lusitano, herdamos destes o legado da comida informal, do bom comer “pouco e sempre”. Das Tapas espanholas às pequenas Tascas lusitanas onde se cultiva a cultura das pequenas porções diárias, regando-o a um bom vinho, harmonioso aos dias frios europeus, ou à cervejinha trincando, mais propícia ao nosso clima. Cá em terras tupiniquins, as pequenas porções ganharam nomes mais apropriados e pomposos à sua maestria. A Comida de Botequim tornou-se célebre, e ganhou ares de Lorde. Virou o Barão da Ralé. E atenção: Não estou falando em Batata-frita. Como diz meu irmão Gustavo Frade; – “a mais sem graça das Porções”. Estou falando do típico, do regional, do surpreendente. Daquela sugestão do Garçom que faz você entrar na cozinha pra abraçar o Cozinheiro. E neste variado celeiro, encontramos as mais variadas iguarias; do testículo de Galo à Rã a milanesa encontrados no Bar Valadares na Lapa Paulistana até empadinha aberta de Camarão do Belmonte, com suas diversas filiais na capital fluminense. O Buffet de frios do Juarez impõe respeito com sua variedade e frescor de queijos aos embutidos. O Cervantes no Rio com seu sanduíche de Pernil com Abacaxi merecia ser Tombado. O bolinho de arroz do Filial, na incomparável Vila Madalena, invade a madrugada representando o segmento no fim de noite na Zona Oeste paulistana. O Bar do Bill, ainda em Pinheiros, e seus caprichos representam bem a riquíssima Culinária Nordestina. E por ai vão, caldinhos de feijão, de sururu, de piranha. A desconhecida Mocofava; mistura da fava, espécie de feijão, com mocotó é simplesmente Restauradora.  Talvez daí tenha vindo a expressão mundial “Restaurante”; local que vende comida que restaura. Quem sabe? Mais um assunto pra se discutir na vasta “cultura botequense”. E realmente nada mais revigorante do que uma Cerveja gelada, e uma simples porção de calabresa acebolada com farofa e pão Francês. Ah, e o torresmo? Torresmo, não. O Imortal torresmo. Esta iguaria deveria ser considerada Patrimônio Nacional; o Cristo Redentor, a Cachaça e o Torresmo.  Combinar tudo isso com uma cerveja gelada, uma batucada, e um bom papo com os amigos é, sem dúvida, Restaurador; para o corpo e mente. E aos amantes de batata-frita de plantão que me perdoem, mas Comida de Boteco são outros quinhentos.   Leonardo Frade, Advogado, carioca, amante do bom Samba e curioso das delícias da vida boêmia.

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Virada Cultural em São Paulo.

Publicado: 8 de maio de 2012 em Uncategorized

Apesar de achar que a Virada Cultural em São Paulo já virou tradição, que é muito importante a população ocupar o centro da cidade de forma diferente do dia a dia e entre tantos outros aspectos positivos que isso tem, venho aqui refletir sobre a forma com a qual ela é organizada e como a política da cultura paulistana caminha.

Começamos no mês passado um projeto de samba na Praça João Pais Malio, Parque Regina, Zona sul de São Paulo. O objetivo do projeto é aumentar o repertório cultural na região e tornar o espaço da praça numa referência de samba, de graça, no espaço público na cidade.

Em visita á subprefeitura conversamos com o supervisor de cultura para saber como essa supervisão poderia nos ajudar no projeto. A resposta foi bem franca, “Em nada”. A subprefeitura não tem equipamento de som, não tem tendas e barracas, não tem palco, não consegue produzir um material de comunicação, NADA! Alias, podem sim, limpar a praça antes do evento.

Minha opinião é que a Virada Cultural é sim um exemplo de boa política pública, mas deve vim acompanhada de outras, como mais autonomia para os supervisores de cultura dos distritos – pois eles estão muito mais próximos da comunidade e mais acessíveis também – mais recursos para esses supervisores, mais estrutura para subprefeitura investir nos projetos sociais que assim como o Samba da Vila na Praça, lutam para que aconteçam regularmente, contando sempre com tempo e recurso da comunidade em geral.

Nossa Virada Cultural não dura 24 Horas.

Nossa Virada Cultural dura 365 dias no ano!

Como mudou!

Publicado: 7 de maio de 2012 em Uncategorized

Durante minha adolescência passei muitas e muitas noites nos pagodes da quebrada, era no Bar da Batida no Regina, no Quiosque no Arariba, na Kamassati, na pizzaria, enfim, vários eram os lugares onde um grupo de jovens, assim como eu na época, faziam o famoso pagode. Esses jovens tinham a ambição de fazer muito sucesso, de ter suas músicas cantadas por todos, tocadas nas rádios e tudo mais que vem com a fama.

Para falar a verdade eu não curtia muito esses pagodinhos românticos demais, mas enquanto era adolescente não tinha, nem grana para frequentar os sambas fora do bairro e nem conhecia muita coisa fora também, a única opção de samba diferente eram os ensaios da Gaviões e do Vai Vai.

Aqueles garotos que cantavam os sambas nos bares cresceram e viram que viver da música é muito difícil no Brasil e mesmo com talento, ás vezes a gente não consegue. Assim como no futebol, a música é uma ilusão para a maioria.

Bom o tempo passou e no bairro onde moro poucos fizeram da música sua profissão Aquele pagode que encantou as periferias de São Paulo na década de 90 hoje não encanta mais, não sei se a quebrada hoje tem mais grana e consegue dar um role fora do bairro, ou se faltam opções por conta da violência que percorreu todo esse tempo junto com pagodes, já que era comum todo mundo sair correndo do pagode quando começava o tiroteio. Não era estranho pra ninguém uma pessoa matar outra no meio do samba, eu mesmo já presenciei mais 4 assassinatos nessas situações.

A mistura dessa desilusão com a música, da violência e talvez de um maior poder econômico, fez que com que outras coisas aparecessem na quebrada. Uma delas foi à volta do samba, que por um tempo foi semeado no bar do Chapinha e espalhado por muitos territórios em São Paulo, mas que por vários motivos deixou de acontecer dando espaço á música comercial. Assim aconteceu com Katinguelê, Grupo Malicia, Sem Compromisso e tantos outros.

Esses grupos tiveram um papel importante na formação musical de vários jovens daquela época, além de que, eram sempre pessoas da periferia que estavam conseguindo viver da música. Meu único questionamento é a venda de uma ilusão, pois era muito claro que não tinha espaço para todos e nos bastidores todos sabiam que para conseguir tocar na rádio, só com muita grana para o famoso “Jabá”.

Depois da década de 90 não tínhamos mais tantos grupos de pagode fazendo sucesso nas rádios. Acredito que a internet foi muito responsável por isso, pois as musicas estão muito mais acessíveis.
Durante a primeira década de 2000 poucos grupos restaram e fizeram sucesso, alguns estouraram e sumiram, mas poucos permaneceram como Exaltasamba, Pixote, Belo, Revelação, Alexandre Pires e não sei mais quem.
Nesse momento começaram a surgir alguns movimentos de samba nas periferias. Os espaços onde se tocava o samba autentico deixaram de ser tão raros e o samba “raiz” começou a voltar para a periferia, já que por falta de espaço ele tinha se afastado e invadido o centro da cidade e os bairros de classe média como Vila Madalena, por exemplo.

O Samba da Vela foi o primeiro movimento de samba mais perto da periferia que eu conheci. Não foram poucas as vezes que eu, meus primos e amigos passamos a segunda à noite no bar do chapinha em frente ao colégio Lineu Prestes em Sto Amaro ouvindo sambas que nunca ouviríamos em outro lugar, de compositores desconhecidos da maioria.

Esse foi com certeza o movimento cultural mais forte que eu tinha conhecido até então. A preocupação em dar visibilidade aos artistas que não tinham espaço nos sambas comerciais da mídia me encantou, uma missão difícil que só de existir já era sensacional. Conheci musicas lindas e a partir daí a procurar mais sambas do mesmo gênero. O primeiro indicado por Maurilio de Oliveira foi o Mestre Marçal, simplesmente fantástico. Mas também não quero contar a minha vida no samba aqui.

O fato é que depois do Samba da Vela, outros surgiram, e hoje é o samba que realmente toca na periferia, é o samba que cultiva a história do país, que tem o compromisso de transmitir conhecimento para as pessoas, passar valores e o mais importante, nesse samba ninguém está preocupado em vender mais, em conseguir mais, a única preocupação é a disseminar uma cultura que ficou a tempos esquecida e que hoje tem seus redutos nas quebradas de São Paulo.