Entrevista com Gabriel Cavalcante ( da Muda) publicada originalmente no bog http://euqueroumsamba.blogspot.com.br

Publicado: 22 de março de 2012 em Uncategorized

Gabriel Cavalcante

O samba ressurgiu de uns 15 anos pra cá, desde que jovens cariocas retomaram o bairro da Lapa com pandeiros, cuícas e violões e alastraram as tradições do gênero musical para todos os cantos do País. Passada a sensação inicial, uma questão ficou difícil de liquidar: como compor samba contemporâneo sem esquecer o passado e, ao mesmo tempo, sem saudosismo à toa. Muita gente tentou e, para mim, poucos conseguiram. Uma dessas exceções é o tijucano Gabriel Cavalcante, 25 anos, também conhecido como Gabriel da Muda, que no início de 2011 lançou o ótimo O Que Vai Ficar Pelo Salão, com participação do violonista Patrick Ângelo e dos compositores Roberto Didio e Renato Martins.

Gabriel também é uma das figuras que comandam o Samba do Ouvidor, roda de samba que ocorre duas vezes por mês nas esquinas das ruas do Mercado e do Ouvidor, no centro do Rio. Toda a história começou em em 2005 quando, com apenas 19 anos, passou a fazer parte do Samba do Trabalhador, comandado por Moacyr Luz.
Eu o conheci pessoalmente há uns 4 anos em Copacabana, durante o carnaval, e tomamos uma cerveja juntos. Mas só o vi tocar no ano passado numa roda em São Paulo. O seu vozeirão e carisma impressionam e ajudam a revigorar o gênero musical mais importante do Brasil.
Resolvi, então, fazer uma entrevista com o músico. Gabriel, que considera-se um “comunista não praticante” e “fã absoluto do Lula”, fala sobre sua relação com o bairro da Tijuca, sua visão sobre como compor samba contemporâneo e cita seus músicos preferidos além-samba. Ele também afirma que vale a pena se manter fiel aos seus princípios musicais: “Faço música pela música. Meu radicalismo é não abrir mão dos meus ideais por tentações comerciais. Quando chego num lugar como Maceió, Florianópolis ou São Luis e percebo que tenho admiradores do meu trabalho, vejo que tudo vale a pena”.
Fale sobre sua relação emocional com a Tijuca. O bairro influencia seu modo de fazer música?
A Tijuca é o meu lugar. Nasci por aqui. Fui criado na rua Uruguai, onde moro até hoje. Aprendi a amar este lugar. Foi andando pela Muda que comecei a ser o bairrista que sou. Por lá, ensaiava o Nem Muda Nem Sai de Cima, bloco fundado por Moacyr Luz, Aldir Blanc e outros boêmios do bairro. Quando pequeno, ia pra lá sozinho, ver o movimento, o samba, e tentar entender um pouco aquele universo. Via naqueles ensaios o amor que as pessoas tinham pela Tijuca, e descobri que era o mesmo que sentia. Me achei ali, na Garibaldi, rua onde bebi minha primeira cerveja. A Tijuca infuencia em tuda na minha vida. Convivi com algumas figuras como os saudosos Basile e Diniz , além de Greg, Queiroz e tantos outros. Só gente da antiga. Cansaram de puxar minha orelha quando viam algo de errado. Depois fui conhecendo pessoas da minha faixa etária que também tinham esse amor, e são essas pessoas que faço questão de conviver diariamente. E foi no Bar do Momo onde sentei pela primeira vez com meu cavaquinho para tocar com os coroas.
Como começou a ser conhecido no samba carioca?
Até então, minha vida no meio do samba se resumia a esses encontros na Tijuca. Depois toquei durante algum tempo num grupo, que se apresentava pelas bandas da Lapa, mas não durei muito tempo. O acontecimento mais importante, que me deu visibilidade e abriu de vez as portas para mim no samba foi o Samba do Trabalhador, do qual faço parte desde a primeira roda, em maio de 2005.
Como foi o processo de criação do Samba do Ouvidor, roda de samba da qual você faz parte hoje?
Aconteceu meio que naturalmente. Sentíamos falta de um lugar para tocarmos os sambas sem a preocupação de agradar o empresário ou não, e nada mais justo do que fazer um movimento desse na rua, de graça, para qualquer um chegar. A rua do Ouvidor é uma rua histórica no Rio, que casou perfeitamente com os sambas que cantamos, históricos, porém pouco lembrados por aí.
Quais figuras foram importantes para a criação do seu primeiro CD? Houve muitos parceiros no projeto?
Em primeiro lugar meus irmãos Roberto Didio e Renato Martins, que conheci em 2007, e desde então não saímos mais separados. Chamei outro querido amigo, Patrick Ângello, violonista de primeira linha que caminhou comigo nas primeiras jornadas musicais profissionais no Rio, antes mesmo do Samba do Trabalhador. E claro, meu fiel Moacyr Luz, incentivador da minha carreira, parceiro de profissão e de vida.
 Há uma dificuldade de fazer samba com temática contemporânea?
Acho que sim. Mas já dizia Noel Rosa de Oliveira: …O que passou, passou, ficou pra trás. Cantar samba é diferente de produzi-lo. Vejo hoje em dia pessoas fazendo samba falando de coisas que provavelmente nem nossos pais viveram. Com muito respeito a todos, esse tempo já passou. O que tinha que ser feito já foi. Cantar sambas antigos é reverenciar e manter um hábito vivo, porém fazer sambas com temáticas de 60, 70 anos passados é desconhecer e ignorar o presente.
Alguns pontos tradicionais de samba no Rio, como a Lapa, estão passando por um processo de “modernização”, com bares sofisticados e tal. Como isso atinge o samba que é feito por lá?
Atinge muito, e de muitas formas. Em primeiro, o samba não é mais a estrela nem o foco principal. Os empresários estão interessadoa nos seus próprios bolsos. Em segundo, o músico deixou de ter liberdade, pois se canta algo que não agada o empresário, corre o risco de não receber e ser mandado embora do local. Em terceiro, os músicos mais experientes acabam se afastando, e naturalmente e qualidade dos sambas feitos por lá cai.
O estilo musical entrou fortemente na moda no começo dos anos 2000, e agora está menos em evidência. Qual sua impressão sobre esse processo?
Não acho que esteja tanto fora de evidência, mas acho esse declíneo natural. No início todos vão, pois é moda, depois ficam os apreciadores, os sambistas, que mesmo sem tocar um instrumento estão ali, cada um contribuindo do seu jeito.

Você costuma vir para São Paulo. Sob o ponto de vista do samba, o que pensa da cidade?
Gabriel e Moacyr Luz
Não vejo muita diferença pro Rio. O Rio tem essa ligação natural com o samba, porém vejo São Paulo lado a lado em termos de movimentos, rodas em ruas, praças… Fora isso, o profissionalismo do paulista é muito positivo.
Além de samba, o que gosta de escutar?
Ouço muito Nana, Dori e Danilo Caymmi. A obra não sambística dos ídolos Aldir Blanc e Paulo Cesar Pinheiro. Ivor Lancelloti. Gostei muito do último CD do Chico. O da Amelia Rabello está impecável também. Vez ou outra coloco algo cubano para ouvir. Compay, Ibraim, El Inegualabile Bola de Nieve. Piazolla, Michel Legrand e Piafh são lembrados também.
Você se diz um sujeito radical, e que foi esse radicalismo que te levou até onde você está. Explique melhor.
Faço música pela música. Meu radicalismo é não abrir mão dos meus ideais por tentações comerciais. Muitos não entendem, principalmente meu pai e minha mãe (risos), porém quando chego num lugar como Maceió, Florianópolis ou São Luis, e percebo que tenho seguidores e admiradores do meu trabalho, vejo que tudo vale a pena.

Pra fechar: você tem um sambista preferido? E por quê?
É difícil falar num só, mas vou de Candeia, pela postura e por ter rompido barreiras. Candeia foi muito além do sambista e compositor.

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