Mussum, o rei do reco-requis

Publicado: 26 de janeiro de 2012 em Uncategorized

 

Seleções musicais e histórias

 

Os Originais do Samba, com Mussum ao centro esmirilhando o reco-reco em 1972. Com o grupo, participou da gravação de 12 LPs e ganhou três discos de ouro. Armando Borges / CEDOC FPA
 

Mussum, o rei do reco-requis

ALCEU MAYNARD | 07.08.2011

Sentado no bar, Mussum cantarola trecho de “Lá no morro”, de Almir Baixinho, Dona Fia e Marujo, gravada pelo grupo Fundo de Quintal. Mal termina, dirige-se ao garçom e tenta convencê-lo armar uma “pindureta” (vender a fiado) para a mesa, já repleta de “ampolas diuréticas” (garrafas de cerveja). Sem sucesso, Mussum e seu colega são arrastados do bar por um policial. A cena se passa no humorístico Os Trapalhões em pleno horário nobre dominical do maior canal de TV do país, poucos anos após o fim da ditadura militar.

Assistido predominantemente por crianças, o quadro hoje soa politicamente incorreto. Mas sem entrar nesta discussão, a verdade é que Mussum é o carismático personagem do músico, cantor e compositor Antônio Carlos Bernardes Gomes. O apelido do atrapalhado boêmio dos morros cariocas que não perde uma oportunidade de demonstrar sua habilidade no batuque de mesa e não recusa um gole de mé (cachaça) é dado por Grande Otelo, em referência a um peixe sem escamas, liso e ligeiro como as “sacadas” do ator.

Na juventude, Antônio Carlos estreita sua relação com o samba por meio de sua escola de samba do coração, a Estação Primeira de Mangueira. Observador, pesquisa o jeito malandro e gozador dos colegas. Muito estimado pela comunidade, passou de “Carlinhos da São Francisco” para o “Mumu da Mangueira”. Em depoimento ao documentário “Retratos brasileiros” (1998), do Canal Brasil, dirigido por Sérgio Rossini, Dedé, um dos colegas Trapalhão afirma: “Ele fazia muitas coisas pela Mangueira. Chegou trocar o cachê porque eles precisavam de um consultório de dentista”.

Disciplinado, herança dos oito anos em que serve a Força Aérea Brasileira, Antônio Carlos dedica-se ao reco-reco, enquanto participa da Caravana Cultural de Música Brasileira, de Carlos Machado: “Nunca vi ninguém tocar reco-reco como o Mussum! Ninguém tinha aquele suingue, só ele”, conta a cantora Alcione para o mesmo documentário.

Na década de 1960, Antônio Carlos junta-se a outros músicos amigos, a maioria ritmistas, e forma o grupo Os Sete Modernos, posteriormente chamado Os Originais do Samba. Em 1962, fazem sua primeira excursão ao exterior: passam sete meses no México como Los Siete Diablos de la Batucada: “Passamos é fueme mesmo! A gente falava é cueca-cuela, ensaladis”, relembra Antônio Carlos ao lado dos companheiros Bidi, Chiquinho, Bigode, Rubão e Lelei em entrevista ao programa MPB Especial, da TV Cultura, em 1972.

Logo a sorte do grupo muda. Em 1968, o produtor Solano Ribeiro sugere o grupo para se apresentar ao lado de Elis Regina na “I Bienal do Samba”, interpretando “Lapinha”, de Baden Powell e Paulo Cesar Pinheiro. A música vence o festival e Os Originais são contratados pela gravadora RCA Victor. Do primeiro, homônimo, desponta o sucesso “Cadê Teresa”, de Jorge Ben.

  • Cadê Tereza – Os Originais do Samba

Tentando fixar o grupo em São Paulo, Antônio Carlos pede ajuda a Jair Rodrigues. O cantor apresenta os sambistas para seus empresários, a dupla Venâncio e Corumba, que os colocam em seu casting. Logo, Jair inicia uma série de shows ao lado d’Os Originais do Samba: “Nos tornamos grandes amigos. Eu estava sempre na casa deles, e eles na minha. Inclusive, ele (Mussum) botou até um apelido em mim, que era “Zé da Zona”, porque a gente ia para as cidades fazer show e, depois para a noitada. Ele me chamava de Zé. Daí ficou ‘Zé da Zona’, diverte-se Cachorrão.

“O prazer dele era dar um porre no cara, vê-lo sair de quatro da casa dele, ver o cara ficar doidão”, afirma outro companheiro musical e de noitadas, Jorge Aragão, ao documentário “Retratos brasileiros”. Com Os Originais, Mussum grava o Aragão em 1977 e, posteriormente, três vezes em carreira-solo, dividindo a autoria em duas: “Paz e humor” e “Madureira Vaz Lobo e Irajá”, em ambas também com Neoci.

Carismático e bem-humorado nos palcos e nos bastidores, Mussum chama atenção dos comediantes profissionais. Em 1969, participa do programa de Chico Anysio. É o veterano colega que sugere a Mussum acrescentar as terminações “is” ou “évis” na palavras, que se torna sua marca registrada. Ao assistir ao programa, outro humorista, Renato Aragão, enxerga em Mussum o tipo ideal para integrar um novo projeto que elabora para a TV Excelsior: “Eu queria gente que nunca tivesse feito televisão, mas que tivesse experiência. Era difícil isso!” comentou o criador de Didi Mocó. Convencido pelo comediante Dedé Santana, o sambista concorda em participar do trio que logo migra para a TV Record e ganha o quarto integrante, Zacarias.

Mas a música é prioridade de Mussum, que se sente muito mais um “tocador de reco-reco” que humorista, mesmo considerado por muitos como o mais engraçado do grupo trapalhão. Sendo assim, os anos de 1970 são produtivos para Os Originais do Samba, que lançam mais de dez álbuns e uma coletânea. Com repertório variado, em Samba é de lei (1970) gravam Jorge Ben, Silvio César, Roberto e Erasmo Carlos, e Nelson Cavaquinho.

  • O bem e o mal – Os Originais do Samba

Dois anos depois, lançam O samba é a corda, os Originais a caçamba, álbum que engata o maior sucesso do conjunto, “O lado direito da rua direita”, de Luis Carlos e Chiquinho. Acompanham artistas consagrados como Chico Buarque, Toquinho e Vinicius, Paulinho da Viola, Elza Soares, Elis Regina, Jorge Ben, Martinho da Vila, e o amigo Jair Rodrigues, e se tornam o primeiro conjunto de samba a se apresentar no Teatro Olympia, em Paris.

  • Do lado direito da rua Direita – Os Originais do Samba

Mesmo com a popularidade nas alturas, Mussum não perde a humildade e simplicidade de Antônio Carlos, e continua sendo “mais um” dos seis integrantes d’Os Originas do Samba, cantando com vocais em uníssono. “Ele era uma figura muito dada, simples, tratava bem todo mundo que chegava nele… Ali, nos Originais, não tinha um só que mandava; todos os componentes eram os líderes”, disse Jair Rodrigues.

Em 1974, sempre com a eclética receita de bom humor nas letras e arranjos que passeiam entre algumas vertentes do samba, gravam o álbum Pra que tristeza, que apresenta “Tragedia no fundo do mar (Assassinaram o camarão)” e “Complicação”, composição de Mussum, Bidi e Luis Carlos. Depois do sucesso da maliciosa “A dona do primeiro andar”, parecem aderir ao universo do colega trapalhão e gravam O aniversário do Tarzan, LP em que a capa traz os integrantes fantasiados de personagens de histórias em quadrinhos.

O sucesso de Mussum nos Trapalhões começa atrapalhar a trajetória de Antônio Carlos no grupo que ajudou a formar. Em 1979, após o lançamento do álbum Clima total, o cantor e ritmista abandona o conjunto com quem gravou 12 LPs e ganhou três discos de ouro.

  • A vizinha (Pega ela, peru) – Mussum

Começa a etapa individual na carreira musical de Mussum. Acompanhado por Almir Guineto (cavaco e banjo), Wilson das Neves (bateria), José Briamonte (piano), e outros músicos consagrados, lança em 1980 seu primeiro LP, homônimo. “A vizinha”, mais conhecida pelo refrão “Pega ela, Peru!”, é o primeiro sucesso de Mussum longe de sua antiga trupe. O álbum tem participações de Márcia, Martinho da Vila e Jorge Aragão. Destaque para “Nega besta”, de Arnaud Rodrigues, na qual canta com o linguajar do personagem que fez história.

Em “Um amor em cada coração”, uma composição de Vinicius de Moraes e Baden Powell, canta suave ao lado de Márcia. A faixa escolhida relembra o ano de 1968 quando Márcia e Os Originais do Samba acompanham o menestrel do violão, Baden, em álbum ao vivo, gravado no Teatro Bela Vista, em São Paulo.

Elegantemente vestido com terno branco e gravata verde e rosa, homenagem à escola de samba Mangueira, Antônio Carlos cumprimenta seu alter ego, Mussum, na capa do segundo álbum-solo,Água benta. Lançado em 1983, conta com músicos-regentes como Rildo Hora, José Briamonte, Wilson das Neves e Léo Gandelman. Na faixa título do disco, Mussum divide o partido-alto com Alcione, e em “Rio antigo” mostra sua versatilidade em uma bossa nova assinada com Chico Anysio. Ainda neste ano, grava a trilha sonora de O cangaceiro trapalhão, um dos 27 filmes do quarteto.

  • Água benta – Mussum (part. Alcione)

Três anos depois, Mussum registra seu último álbum individual. Com grande parte dos músicos do álbum anterior e mais a participação de Alceu Maia, Raphael Rabello e Arlindo Cruz, o LP traz duas composições autorais, incluindo a faixa de abertura, “Because forever” , parceria com João Nogueira. Ainda em 1986, grava “Paz e humor” para a trilha sonora do filme Os Trapalhões no rabo do cometa, que ainda conta com Premeditando Breque, Grupo Rumo, Ira!, e Ultraje a Rigor.

  • Because forever – Mussum

Os próximos álbuns dos comediantes são Os Trapalhões (1987) e Amigos do peito (1991). Sabendo das dificuldades de manter a carreira-solo, Mussum propõe a Jorge Aragão formar um conjunto para tocar sem compromisso, apenas entre amigos. Seu parceiro aceita o convite, porém a ideia nunca se concretiza. Pouco depois, Mussum começa a apresentar problemas de saúde e, em 29 de julho de 1994, aos 53 anos de idade, morre em virtude de complicações após um transplante de coração.

Abaixo, trechos do programa MPB Especial com Originais do Samba na TV Cultura em 1972.

REPERTÓRIO

01. Cadê Tereza (Jorge Ben), por Os Originais do Samba e Jorge Ben (1969)
02. Vou me pirulitar (Jorge Ben), por Os Originais do Samba e Jorge Ben (1969)
03. E lá se vão os anéis (Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro), por Os Originais do Samba (1971)
04. Do lado direito da rua Direita (Luis Carlos e Chiquinho), por Os Originais do Samba (1972)
05. O bem e o mal (Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito), por Os Originais do Samba (1970)
06. Saudosa maloca (Adoniran Barbosa), por Os Originais do Samba (1974)
07. Tragedia no fundo do mar (Assassinaram o camarão) (Zere e Ibrain), por Os Originais do Samba (1974)
08. A dona do primeiro andar (Luis Carlos e Lucar), por Os Originais do Samba (1975)
09. Maria, vai ver quem é (Monarco, Sarabanda e Cafuné), por Os Originais do Samba e Clementina de Jesus (1978)
10. Água benta (Sombrinha e Ratinho), por Mussum (participação de Alcione) (1983)
11. A vizinha (Pega ela, peru) (Paulinho Durena e Walter Moreira), por Mussum (1980)
12. Crioulo fumê (Mussum), por Mussum (1983)
13. Paz e humor (Mussum, Jorge Aragão e Nelci), por Mussum (1986)
14. Because forever (Mussum e João Nogueira), por Mussum (1986)
15. Um amor em cada coração (Baden Powell e Vinicius de Moraes), por Mussum e Márcia (1980)
16. Nega besta (Arnaud Rodrigues), por Mussum (1980) (Mús. incidental: The old fashioned way, de Aznavour e Garvarentz)
17. Rio antigo (Nonato Buzar e Chico Anísio), por Mussum e Chico Anísio (1983)
18. Filosofia de quintal (João do Cavaco e Zé Maurício), por Mussum (1986)
19. Piruetas (Enriquez, Bardotti e Chico Buarque), por Chico Buarque e Os Trapalhões (1981)
20. Lapinha (Baden Powell e Paulo Cesar Pinheiro), por Elis Regina e Os Originais do Samba (1968)

 

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